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LONGE de CASA

09/03/2006 20:42



AS INTERMITÊNCIAS DA MORTE
DE JOSÉ SARAMAGO
207 PÁGS.









TRECHO:“No dia seguinte ninguém morreu. O facto, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenómeno semelhante, passar-se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e nocturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, uma queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada”.


SINOPSE: “De repente, num certo país fabuloso, as pessoas simplesmente param de morrer. E o que no início provoca um verdadeiro clamor patriótico logo se revela um grave problema. Idosos e doentes agonizam em seus leitos sem poder "passar desta para melhor". Os empresários do serviço funerário se vêem "brutalmente desprovidos da sua matéria-prima". Hospitais e asilos geriátricos enfrentam uma superlotação crônica, que não pára de aumentar. O negócio das companhias de seguros entra em crise. O primeiro-ministro não sabe o que fazer, enquanto o cardeal se desconsola, porque "sem morte não há ressurreição, e sem ressurreição não há igreja". Um por um, ficam expostos os vínculos que ligam o Estado, as religiões e o cotidiano à mortalidade comum de todos os cidadãos. Mas, na sua intermitência, a morte pode a qualquer momento retomar os afazeres de sempre. Então, o que vai ser da nação já habituada ao caos da vida eterna? Ao fim e ao cabo, a própria morte é o personagem principal desta "ainda que certa, inverídica história sobre as intermitências da morte". É o que basta para o autor, misturando o bom humor e a amargura, tratar da vida e da condição humana.”


MINHA OPINIÃO: O livro é uma surpresa,ótima surpresa que o título esconde*. Na realidade ele se revela cômico, mas não vá entender que é uma comédia rasgada, cheia de piadas bobas, isso não é a cara de Saramago. O livro é sarcástico, proporciona sorrisos de canto de boca, enquanto o autor nos revela o que pode acontecer em um país em que ninguém morre (da euforia do patriotismo ao colapso do Estado e das instituições).

O tema da morte não é novo e todo mundo compara o livro com outros sucessos de Saramago, como se “As intermitências...” fosse um Saramago menor. Eu não concordo. O livro não tem o mesmo foco de outros trabalhos do autor, considerados mais sérios. Despretensioso, preenche bem o seu lugar. E ainda deixa algumas lições sobre a velhice e o afeto na sua parte “função social” (vide uma fábula que ilustra bem o assunto,infelizmente não achei o trecho na net, talvez um dia transcreva aqui).

Depois que são expostos todos esses problemas, o leitor pensa que o livro vai seguir linearmente até o fim das últimas vinte páginas.Mas aí o livro muda totalmente, não é mais uma comédia britânica, e a mudança faz muito bem ao livro (não vou dizer no que ele se transforma por óbvias razões).

Acho que ficou claro que eu ADOREI o livro, apesar de ter demorado décadas para terminá-lo (culpa da faculdade sempre me atrapalhando e do modo de escrever saramaguiano: parágrafos de três folhas, frases de três páginas). José Saramago foge com certeza do estereótipo de de potuga que temos aqui no Brasil.


* TESE DE CONSPIRAÇÃO:

INTERMITÊNCIAS DA MORTE X MEMÓRIAS DE MINHAS PUTAS TRISTES

Por óbvias razões, os dois escritores renomadíssimos têm muitos fãs, que ao menor sinal de livro novo correm às livrarias. Mas “Memórias...”, desde que foi lançado se mantêm no topo da lista dos mais vendidos da Veja (1º a 4º lugar), enquanto “Intermitências...” aparece sempre no 8º, 9º, as vezes 10º lugar. Só encontrei uma explicação para isso: O TÍTULO. Ou seja, além dos fãns e leitores assíduos de Garcia Márquez, tem também um pessoal meio leigo que compra o “Memórias...” acreditando achar ali algo parecido com o teor do livro de Bruna Surfistinha. Fala sério, qual o título estimula mais a leitura ein?. Só achei essa explicação para o novo livro de Marquez passar à frente até de livros-que-vendem-que-nem-água como os de Dan Brown e Harry Potter.


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enviada por Nine, nina, binha...






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